Celorico de Basto, 1ª edição.
Bem-vindo ao nosso Arquivo Vivo. Cada postal é um convite para viajar sem sair do lugar. Aqui, as imagens revelam sorrisos, os áudios histórias por contar, e os nossos textos cantam canções desconhecidas. Prepara-te para um mergulho que envolve todos os sentidos – porque a nossa Mesa é isso: um abraço cheio de vida e personalidade.
A residência, em imagens
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As cassetes de Celorico de Basto
De forma a poder levar-te na nossa viagem, gravámos vários momentos da nossa semana (com autorização dos presentes) de forma a que a riqueza desta semana possa ser imaterializada, e que possas partilhar um bocadinho da experiência do escutar.
Uma semana, dia a dia
O que aconteceu à mesa, ao longo da residência.
Dia 01Segunda-feira
A introdução às histórias dos bruxos, às tradições, às mezinhas e à memória do touro com duas cabeças.
Segunda-feira
A introdução às histórias dos bruxos, às tradições, às mezinhas e à memória do touro com duas cabeças.
Senhora Maria do Céu
De Fervença, filha de uma geração migrante. Cresceu entre sete irmãos, quase todos espalhados entre Lisboa, Canadá e Brasil. Criou cinco filhos e tem cinco netos:
“todos bem arrumadinhos”
Tem um arroz de feijão que é só ao domingo. Frango, só em dias de festa. Só vem à vila quando precisa de algo. Diz que é longe:
“três euros daqui.”
Hoje, esperava o irmão.
D. Perpétua
Fala dos Padres de Arnóia com reverência. Não bebe álcool, mas no inverno faz uma exceção: água ardente com açúcar, que põe a arder. Na mesa de cabeceira, um dente de alho descascado dentro de água — bebe tudo de manhã:
“É para purificar.”
A Costureira
Apareceu brevemente. Não ficou o nome, mas ficou o gesto.
O Presidente da Câmara
Fala com orgulho da vila, das camélias nos espaços públicos:
“As camélias orientam o caminho e o percurso.”
Lembra o tempo das irmãs Pinto Basto e da abundância pastorícia: há 40 anos, 61% da população dedicava-se ao pastoreio. Hoje, são apenas 4 ou 5%. São cerca de 18.000 habitantes — cada um com uma história que resiste.
A Senhora do Nada
Apareceu do nada. Aproximou-se do presidente e disse:
“Cada pessoa tem um número. Eu sou o 48. A minha irmã é o 30.”
Depois desapareceu. Não ficou mais nada além disso.
Auxiliar da Câmara
Partilhou o Responsório de Santo António, com devoção.
Responsório de Santo AntónioD. Laurinda
Pouco se ouviu, mas a presença foi serena. Fica o nome como ponto de escuta.
Senhor Agostinho da Silva Lopes
Veio à vila fazer o IRS. Trouxe os cantares. Gravou, cantou, riu.
“Mulher que é mulher tem as mamas duras… e depois, ao de penduro.”o sol prometeu à lua
Lembrou-se do irmão do pai — tinha uma vaca que pariu um touro com duas cabeças:
“Tinha uma orelha de cada lado e uma no meio, que juntava as duas.”
Dia 02Terça-feira
Pelos vários lugares da região — e ainda demos um saltinho a Bochum, não fosse esta uma terra de emigrantes.
Terça-feira
Pelos vários lugares da região — e ainda demos um saltinho a Bochum, não fosse esta uma terra de emigrantes.
Senhor António Rosindo Sousa Ribeiro
Fala alemão — viveu anos em Bochum, na Alemanha, a trabalhar numa fábrica de chapas.
“Se soubesse que você falava alemão, já tinha vindo mais cedo.”
A mulher, Maria de Jesus, foi chamada por carta antes do 25 de Abril. Está sozinho há 5 anos. Os filhos, diz, não o visitam. Esteve na Guerra do Ultramar — 14 meses de recruta, quase 4 anos ao todo. Visita a cidade de táxi. O motorista espera sempre com paciência, para que ele possa “estar com as pessoas”. Tem sempre ovos frescos. A vizinha partilha com ele, e ele partilha com quem precisa. “Não preciso de tantos.”
O Senhor e a Senhora
Conversaram sobre Ribeira de Pena. Conhecem alguém que trabalha na mesma praça que a minha tia. O mundo, às vezes, é mesmo pequeno.
O Senhor Jesus
Vem de Infesta. Está a tirar formação de pesados. Tem pulseira eletrónica. Foi condenado por um crime de violência doméstica. Diz que não cumpriu o que lhe foi atribuído. Vê o território como jogo de posicionamento:
“O Zé Maria fica atrás do campo.”
Sra. Joaquina
Contou histórias com um brilho nos olhos.
Ouvir excertoSabia onde andavam os bruxos: o Dr. Sérgio, da nota de 10 e de 50; a florista; o taxista; um que vinha do castelo. Falou de um homicídio (ou suicídio) de bruxos — “há uns dez anos”.
“Eu sei onde eles andam, mas não acredito neles… para mim.”
Histórias super gráficas, entre o real e o imaginado, ditas como quem planta feitiços na escuta.
Rosa
Da comunicação da câmara, mas o tom era de quem já viveu outras comunicações — mais antigas, mais intuitivas. Falou dos bruxos e das mezinhas, das ervas aromáticas e das receitas que são “mimos de Arnóia”.
“As pessoas não querem o que os outros têm. Só não querem é que tu tenhas.”
Lembrou o Zé do Telhado, o Robin dos Bosques português, que partilhou cela com Camilo Castelo Branco.
Dia 03Quarta-feira
Entre couves, cravos e morangos, a história do bruxo volta a aparecer com novos detalhes.
Quarta-feira
Entre couves, cravos e morangos, a história do bruxo volta a aparecer com novos detalhes.
Ana e Rute
Trabalham na MultiÓpticas. A Ana é de Guimarães, a Rute de Cabeceiras. Todos os dias fazem o caminho até Celorico.
“Conhecemos um músico amigo que está a tocar em Amesterdão.”
Mentes jovens e abertas, que conseguem criar pontes entre gerações.
Arminda
Retornada de França. Teve de deixar a filha em Portugal ao cuidado da mãe — o advogado para quem trabalhava não a aceitava com criança. Viveu com o marido (construção civil) e com o filho mais novo em França. Carrega promessas feitas a São Bento da Porta Aberta, no Castelo de Arnóia:
“Doze cravos cor-de-rosa e cinco euros… para tirar os sinais.”
Agostinho
Voltou ao nosso encontro porque foi ao centro de saúde.
“Caí ontem à noite.”
O corpo diz, o corpo lembra.
Sr. António
Voltou também.
“Pensei em vocês durante a noite.”
Chamou-me “a mulher mais bonita do mundo”, em alemão. E por instantes, a praça foi palco.
António Alves
Nova versão do homicídio do bruxo. Desta vez, o taxista. Os filhos em França, os netos vieram e saíram a falar português, mesmo sem o saber à partida.
“Para apanhar morangos, usa-se a folha da couve.”
Fala dos morcões das couves, entre ditos, imagens e refrões.
À noite, com Paulo
Apareceu a versão “real” da história do bruxo. A verdade, como as couves, tem muitas camadas.
Dia 04Quinta-feira
Um almoço acompanhado pela canção das camélias e uma boa desgarrada.
Quinta-feira
Um almoço acompanhado pela canção das camélias e uma boa desgarrada.
Bahuto
Músico na Banda Filarmónica de Santa Tecla, tinha decidido no dia anterior juntar-se a nós, e assim fez. Trouxe consigo a sua guitarra e o desejo tímido de partilhar connosco a sua música. Cantou-nos a canção das Camélias.
camélias à mesaAna e Rute
Voltaram a sentar-se connosco para almoçar. Falámos de festas, das tradições de Famalicão (a terra da Ana) e de como sabe bem partilhar sobre os sítios que definimos como nossos.
Sr. Arlindo
Emigrante por mais de trinta anos, entre a Bélgica, a Alemanha e o Luxemburgo. Agora investidor imobiliário em Portugal. Voltou devido a um acidente de trabalho e desloca-se por Celorico na sua mota elétrica. Amante de música e tocador de concertina, o sr. Arlindo deu-nos uma abada na desgarrada.
desgarrada à mesaDia 05Sexta-feira
O primeiro dia de chuva, o último dia à mesa na praça.
Sexta-feira
O primeiro dia de chuva, o último dia à mesa na praça.
Leo
Neste dia de chuva juntou-se a nós para registar o estar à mesa. Natural do Porto, fotógrafo, videógrafo e músico, veio até Celorico para captar o coletivo à mesa e aqueles que com elas se cruzam.
O sr. dos seguros e o seu par diário
Não chegámos a saber os seus nomes. Cruzaram-se connosco diariamente na praça, no caminho almoço – trabalho. Em andamento, deram sempre meio dedo de conversa.
Na praça e fora dela tornou-se parte da rotina o “boa tarde” cordial que se diz a todos aqueles com quem nos cruzamos. Um cumprimento que reconhece presença. Quer se saiba ou não o nome, quer seja a primeira ou vigésima vez que vemos o outro.
Perpétua
Voltou a sentar-se connosco para duas de treta. Nem a chuva e o frio lhe tiram o bom humor, boa disposição e espírito crítico que lhe fomos conhecendo nestes dias.
Sr. António
Nem a chuva o demoveu de se despedir da nossa mesa. Foi a nossa companhia mais habitual e duradoura. Como postal destes encontros, tirámos uma fotografia e fizemos um vídeo de despedida que mistura português e alemão.
António Alves
Também se tornou presença habitual: trouxe o sr. António à cidade e aqui permaneceu pelo mesmo tempo que o seu cliente, por quem nos parece nutrir cuidado e empatia. O Alves tem casas à venda e os filhos emigrados. Terrenos vastos e planta muita coisa.
Falámos também sobre como é a vida de taxista por ali, e sobre onde mora o Joel — o “verdadeiro” taxista do sr. António que hoje não estava disponível.
A Marta e a avó
Passaram por ali e pararam para conversar debaixo do guarda-chuva. A Marta devia ter cerca de 6 anos e a avó os seus 60. Não ficámos com o nome da avó, mas sabemos que é natural de Celorico e já não mora por ali há alguns anos. Não quer morar em Celorico, diz que não aguenta:
“É só festa, mas não cuidam de quem ali vive.”
Portanto, vai lá de vez em quando.
Dia 06Sábado
Uma mesa interior, coberta por interpretações de Celorico: tradições, superstições, lendas e outras memórias.
Sábado
Uma mesa interior, coberta por interpretações de Celorico: tradições, superstições, lendas e outras memórias.
Neste dia não houve mesa na praça. Montámos uma mesa interior, na Casa da Terra, onde o coletivo à mesa fez a performance que pôs fim à sua semana de residência.
Este estar à mesa durou cerca de 30 minutos e encheu a sala com uma interpretação de Celorico de Basto, realizada por quem “não é dali” mas que procurou entender um pouco “o que é ser dali”. Foi uma performance de música experimental cheia de lendas, tradições e superstições. Uma toalha de papel que serve como arquivo e partitura.
Apesar da divisão entre performers e público, continuou a ser uma mesa com, de e para Celorico de Basto.
Andorinha Astuta, Clarinha e outras gentes de Celorico
Após a performance-concerto, recheámos a mesa de caldo verde, vinho e outros petiscos. A Clarinha, neta de um elemento das Andorinha Astuta, sabia os nossos nomes de cor e deu-nos lembranças e um abraço. Daqui para a frente as lembranças são o próprio abraço.
Falámos com quem por ali passou: falámos da performance, falámos de arte, falámos de Celorico e falámos do que “é ser dali”.

